Sobre as características dos tempos atuais, que pedem uma abordagem híbrida para o fenômeno da preparação poética na dança:
"De acordo com Tourinho (2009), as
estruturas artísticas que determinam a composição cênica são denominadas na
contemporaneidade de dramaturgia, podendo assumir diferentes configurações
dramatúrgicas, como a não dependência de um texto, ou roteiro, que sirvam como
impulso criativo. Essas configurações estão diretamente atreladas às poéticas
dos criadores, que elaboram verdadeiros protocolos para o surgir das obras artísticas.
Assim sendo, a composição nas artes cênicas pode ser tão vasta, misturada, e
inesperada quanto a complexa rede global onde vive cada diretor, coreógrafo, ou
quem mais assinar a concepção do espetáculo.
Lepecki
(2006) parece concordar com Tourinho a medida que diz que a dança atual está
questionando a sua própria ontologia, frente às múltiplas possibilidades
cinéticas que se fazem presentes em cena, desde a falta de movimentos, até a
aparição dos movimentos não fluidos, que "se assemelham a soluços".
Fernandes (2011) também concorda com Lepecki (2006) e Tourinho (2009), ao
sugerir que a cena contemporânea da dança tem se transformado, com as paragens
e pausas dinâmicas aparecendo com frequência, representando uma atitude de
contracultura e transformação necessárias aos artistas cênicos. Para esta pesquisadora, isso só é possível
por meio de uma sintonia somática, pois: "Em meio ao império do signo e do
simulacro, a paragem ativa o fluxo interno e as conexões coletivas rumo à
presença e inte(g)ração criativa com o meio." (FERNANDES, 2011, p. 77).
Para
Madeira (2007), que analisa as artes performáticas[1] dos séculos XX e XXI em
Portugal sob o viés do hibridismo entre arte e ciência, quase todos os
processos de composição nas artes cênicas que se dão nos tempos atuais carregam
consigo a marca do hibridismo, ou da mistura. O híbrido, segundo esta autora, é
um termo utilizado para definir todos os tipos de fenômenos vagos, imprecisos e
variáveis, e se constitui como um paradigma invasor, às vezes visível, outras
nem tanto, que contamina tudo, em um território de cruzamentos sem fronteiras
bem delimitadas. O que o caracteriza, de acordo com Madeira (2007), é o excesso
ou a total falta, mais do que a procura, de uma linearidade narrativa que segue
regras, padrões ou dispositivos técnicos bem formatados. Por ser um território
tão plural, o híbrido não se deixa ler por somente um prisma:
As incorporações (e/ou desincorporações), desenvolvidas através de uma arte de enxertia, uma
arte da mistura, resultariam numa dessacralização dos cânones, que se descontextualizam das
suas convenções tradicionais e locais para adquirirem novas formas e novos territórios, de que
são exemplo hoje os projetos transdisciplinares. (MADEIRA, 2007, p. 16)"
Trecho retirado de BITTAR, A., 2015, p. 39-40.
[1] Termo utilizado por Madeira
(2007) para definir as artes cênicas.
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