sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sobre as características dos tempos atuais, que pedem uma abordagem híbrida para o fenômeno da preparação poética na dança:

"De acordo com Tourinho (2009), as estruturas artísticas que determinam a composição cênica são denominadas na contemporaneidade de dramaturgia, podendo assumir diferentes configurações dramatúrgicas, como a não dependência de um texto, ou roteiro, que sirvam como impulso criativo. Essas configurações estão diretamente atreladas às poéticas dos criadores, que elaboram verdadeiros protocolos para o surgir das obras artísticas. Assim sendo, a composição nas artes cênicas pode ser tão vasta, misturada, e inesperada quanto a complexa rede global onde vive cada diretor, coreógrafo, ou quem mais assinar a concepção do espetáculo.

Lepecki (2006) parece concordar com Tourinho a medida que diz que a dança atual está questionando a sua própria ontologia, frente às múltiplas possibilidades cinéticas que se fazem presentes em cena, desde a falta de movimentos, até a aparição dos movimentos não fluidos, que "se assemelham a soluços". Fernandes (2011) também concorda com Lepecki (2006) e Tourinho (2009), ao sugerir que a cena contemporânea da dança tem se transformado, com as paragens e pausas dinâmicas aparecendo com frequência, representando uma atitude de contracultura e transformação necessárias aos artistas cênicos.  Para esta pesquisadora, isso só é possível por meio de uma sintonia somática, pois: "Em meio ao império do signo e do simulacro, a paragem ativa o fluxo interno e as conexões coletivas rumo à presença e inte(g)ração criativa com o meio." (FERNANDES, 2011, p. 77).

Para Madeira (2007), que analisa as artes performáticas[1] dos séculos XX e XXI em Portugal sob o viés do hibridismo entre arte e ciência, quase todos os processos de composição nas artes cênicas que se dão nos tempos atuais carregam consigo a marca do hibridismo, ou da mistura. O híbrido, segundo esta autora, é um termo utilizado para definir todos os tipos de fenômenos vagos, imprecisos e variáveis, e se constitui como um paradigma invasor, às vezes visível, outras nem tanto, que contamina tudo, em um território de cruzamentos sem fronteiras bem delimitadas. O que o caracteriza, de acordo com Madeira (2007), é o excesso ou a total falta, mais do que a procura, de uma linearidade narrativa que segue regras, padrões ou dispositivos técnicos bem formatados. Por ser um território tão plural, o híbrido não se deixa ler por somente um prisma:

As incorporações (e/ou desincorporações), desenvolvidas através de uma arte de enxertia, uma
arte da mistura, resultariam numa dessacralização dos cânones, que se descontextualizam das
suas convenções tradicionais e locais para adquirirem novas formas e novos territórios, de que
são exemplo hoje os projetos transdisciplinares. (MADEIRA, 2007, p. 16)"


Trecho retirado de BITTAR, A., 2015, p. 39-40. 


[1] Termo utilizado por Madeira (2007) para definir as artes cênicas.

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